Um Pedido de Socorro no Plenário
No dia 14 de novembro de 2025, a Câmara Municipal de Campo Grande se tornou palco de um evento marcante e emblemático. Em uma audiência pública histórica, diversas lideranças comunitárias e moradores de favelas da cidade se reuniram para expor suas inquietações e reivindicações. A emoção permeou o ambiente quando Renata Amarilho Gemines, moradora da Cidade dos Anjos, fez um apelo tocante por ajuda. Seu grito na plenária echoou na sala: “Vai precisar uma criança morrer debaixo de uma árvore ou de um barraco de lona em cima dela para olharem para nós?” Essa fala não apenas refletiu a dor e o sofrimento daquelas comunidades, mas também ressaltou a urgência de ações efetivas por parte do poder público. Renata representava mais de 150 famílias que vivem em condições extremamente precárias, sem acesso aos serviços básicos de infraestrutura.
A participação da comunidade durante o evento foi significativa. Ao todo, mais de 60 comunidades se fizeram presentes, com testemunhos que relataram a realidade de aproximadamente 40 mil pessoas vivendo em barracos de lona, madeira e zinco. Essa concentração de população em condições vulneráveis é uma questão que não pode ser ignorada, já que muitos residem em locais sem água encanada, eletricidade regular e saneamento básico.
O fato de a Câmara Municipal ter ouvido os relatos dessas comunidades pela primeira vez marca um passo importante na luta por visibilidade e reconhecimento das condições de vida das favelas. A indignação e as preocupações reveladas durante essa audiência refletem as esperanças de um futuro melhor e a necessidade de que a sociedade como um todo olhe para esses cidadãos com empatia e ações concretas.

A Realidade das Favelas em Números
Conforme levantamento realizado pela Associação das Mulheres de Favela de Mato Grosso do Sul, o quadro das favelas em Campo Grande é alarmante. São 62 favelas identificadas, habitadas por aproximadamente 40 mil indivíduos que enfrentam a dura realidade das desigualdades sociais. As condições precárias em que essas pessoas vivem contribuem para uma série de problemas sociais, econômicos e de saúde. A ausência de infraestrutura e serviços básicos agrava a situação de vulnerabilidade a que estão submetidos.
De acordo com a mesma associação, muitos dos moradores dessas comunidades não têm um endereço fixo, o que dificulta ainda mais o acesso a serviços públicos, saúde e educação. Essa falta de reconhecimento pode levar a um ciclo vicioso de pobreza e exclusão social, onde os moradores se sentem invisíveis dentro de um sistema que não olha para suas necessidades.
Os dados que cercam o cotidiano das favelas não se restrigem apenas ao número de habitantes e à infraestrutura, mas adentram a qualidade de vida que cada pessoa leva. Questões como a saúde mental das crianças, o estigma que enfrentam e a dificuldade de acesso à educação de qualidade tornam-se elementos cruciais a serem abordados nessa discussão. Assim, é fundamental que a sociedade e o poder público se mobilizem para transformar esse cenário desolador.
Destruídos pelo Temporal: Relatos de Desespero
Um dos relatos mais impactantes durante a audiência foi o de Daniele da Silva Hurtado, moradora da comunidade Esperança José Teruel. Ela trouxe à tona uma situação alarmante: um temporal recente destruiu 15 barracos em sua comunidade. As consequências desse incidente foram devastadoras: famílias tiveram que correr para encontrar abrigo, e o medo de perder tudo tornou-se uma realidade. As mães, desesperadas, se viram em situações de risco, tentando salvar seus filhos enquanto seus lares desmoronavam.
“Naquele momento, foram quase 15 barracos destruídos,” lembrou Daniele. Em meio ao caos, uma estrutura comunitária que servia para a ceia das crianças foi arrancada pelo vento. Essas situações cotidianas revelam uma vida permeada pelo medo e pela instabilidade. Além de enfrentar as intempéries climáticas, os moradores também estão expostos a doenças e à falta de atendimento médico adequado.
O relato de Daniele é apenas um dos muitos que refletem a falta de infraestrutura e assistência social. A precariedade dos barracos, frequentemente construídos com materiais improvisados, torna os moradores vulneráveis a catástrofes naturais e a condições adversas. Sem uma moradia digna, os cidadãos enfrentam constantes desafios e se vêem à mercê da natureza, o que agrava ainda mais a luta diária por dignidade.
Luta por Moradia Digna e Segura
Alexandra de Lima, conhecida como Pequena, vive na maior ocupação do Estado de Mato Grosso do Sul, a Homex, onde mais de 1.500 famílias lutam diariamente pela defesa de seus direitos e pela obtenção de uma moradia digna. Com uma história de insegurança em seu lar, Alexandra expressou a urgência dessa luta. “Nos dias de chuva é um terror. Quando as crianças eram pequenas, eu erguia a minha cama para colocar meus filhos debaixo, porque as paredes balançavam tudo. A minha casa tem o teto caindo em cima de mim,” relatou.
Essas declarações revelam a necessidade não apenas de habitação, mas de um espaço seguro e saudável para que as famílias possam viver. A mobilização comunitária torna-se essencial para que esses moradores possam reivindicar o que é seu por direito. Eles não desejam uma pauta de esmolas, mas sim políticas públicas que garantam direitos e dignidade.
Os relatos de vida como o de Pequena demonstram que a luta por moradia digna e segura transcende a necessidade básica de abrigo, atinge a busca pela autoestima e pelo reconhecimento social. A cada voz que se levanta durante as audiências, o sonho de um lar seguro se torna um pouco mais próximo, mas a jornada ainda é longa e árdua.
As Mulheres no Front da Resistência
A participação feminina nas comunidades de favelas é um fator crucial na resistência e na luta por melhores condições de vida. Letícia Polidoro, presidente da Associação das Mulheres de Favela de Mato Grosso do Sul, enfatizou o protagonismo das mulheres nessa batalha, destacando que elas têm sido fundamentais na busca por melhorias. “Nós temos feito um trabalho desde 2020. Eu falo principalmente das mulheres, que têm uma resistência dentro das favelas imensa,” disse.
Além de serem responsáveis por sustentar suas famílias, muitas mulheres exercem um papel importantíssimo nas associações comunitárias. Elas trazem à tona questões relacionadas à saúde, educação e convivência comunitária, criando um ambiente de apoio mútuo e solidariedade. Essa força feminina é um elemento vital na busca por dignidade e moradia, desafiando os estigmas e preconceitos que cercam a vida nas favelas.
Através de suas vozes, as mulheres evidenciam a necessidade de políticas públicas que não apenas atendam às suas demandas, mas que também reconheçam seu papel dentro das comunidades. Elas não são apenas sobreviventes, mas agentes de transformação que lutam por um futuro melhor para suas famílias e para a sociedade como um todo.
A Necessidade de Regularização Fundiária
A falta de regularização fundiária é um dos principais obstáculos enfrentados pelas comunidades de favelas. A ausência de documentos que garantam a posse da terra impede o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas efetivas. A dificuldade em acessar serviços básicos, como água e eletricidade, está diretamente relacionada a essa falta de reconhecimento legal. Em muitas comunidades, os moradores enfrentam a constante ameaça de despejos e remoções forçadas.
Emília Aparecida Diniz Almeida, da Agrovila Campão Orgânico, trouxe à tona a luta por regularização durante a audiência pública. Sua comunidade é produtiva, com 200 famílias que dependem da terra para sustentar-se, mas enfrentam dificuldades pela falta de energia regular e pela impossibilidade de formalização de seus negócios. “A gente não consegue fazer parcerias com órgãos de apoio técnico porque estamos em área de ocupação,” enfatizou.
A regularização fundiária é um tema central nas discussões sobre direitos à moradia. Sem ela, os moradores ficam sem garantias legais que assegurem o direito à terra e ao desenvolvimento de suas vidas. Essa ausência de segurança representa um desafio não apenas para o presente, mas também para as gerações futuras, perpetuando o ciclo da pobreza e da desigualdade.
Criatividade e Superação na Favela
Contrariando a imagem estigmatizada que muitas vezes é atribuída às favelas, as comunidades são locais de criatividade e resiliência. Leila Pantaleão Silva, da comunidade Lagoa Park, fez um discurso poderoso que desmistificou preconceitos. Segundo ela, “a favela é um lugar de vida, resiliência e sonhos. Apesar do sofrimento, ela também tem muita criatividade e superação.”
O talento e a força das pessoas que vivem nas favelas são evidentes em diversos âmbitos, desde a arte até a empreendedorismo. Muitos jovens que cresceram nesses ambientes se tornaram figuras proeminentes em suas áreas, desafiando estereótipos e mostrando que, apesar das dificuldades, é possível alcançar o sucesso. A favela serve também como espaço para fomentar iniciativas inovadoras e coletivas, onde a solidariedade e a ajuda mútua se tornam fundamentais.
Iniciativas de produção cultural, como música, dança e arte, surgem como formas de resistência e autoexpressão, contribuindo não apenas para a autoestima dos moradores, mas também para a construção de uma identidade coletiva. A criatividade nas favelas é um ativo valioso que deve ser reconhecido e celebrado.
Impactos da Falta de Infraestrutura
A ausência de infraestrutura adequada tem um impacto devastador nas comunidades de favelas. O relato de Daniele, que mencionou a destruição de barracos por um temporal, é apenas uma das muitas histórias que evidenciam o efeito da falta de investimentos em infraestrutura. As comunidades enfrentam condições de vida insalubres, sem acesso a serviços básicos como água potável e esgoto sanitário, além de enfrentarem desafios significativos em casos de emergência.
Essas dificuldades geram consequências diretas na saúde dos moradores, aumentando a incidência de doenças e agravando condições pré-existentes. A falta de saneamento básico, por exemplo, pode levar a problemas graves de saúde, especialmente entre crianças e idosos, que são os mais vulneráveis. A situação de vulnerabilidade alimentar é também exacerbada pela capacidade limitada de acesso aos mercados e a alimentos frescos e saudáveis.
Dessa forma, os impactos da falta de infraestrutura vão além da moradia; eles afetem a saúde, a educação e o bem-estar social das comunidades, criando um ciclo de pobreza que é difícil de romper sem intervenção significativa por parte do poder público e da sociedade.
Dignidade e Respeito: A Luta Continua
A audiência pública em Campo Grande não foi somente uma oportunidade para expor as dificuldades enfrentadas pelas comunidades; foi também um grito por dignidade e respeito. Marvim Willian Sena Alves, das comunidades Vitória e Nova Esperança, fez um apelo enfático: “Nós temos idosos, gestantes, crianças sorrindo… mas temos dignidade de ser chamados de seres humanos.” Esta fala ressoou fortemente em todos os presentes, reiterando a necessidade de reconhecer a humanidade e a complexidade das experiências vividas nas favelas.
Os moradores solicitam não apenas moradia, mas uma estrutura que garanta sua dignidade, um lugar onde possam viver sem medo e com o respeito que qualquer cidadão merece. A luta por moradia digna está intrinsicamente ligada à luta por respeito, igualdade e inclusão social. É fundamental que a sociedade como um todo se una para transformar essa realidade.
O papel das autoridades em atender essas demandas se torna essencial. As experiências compartilhadas durante a audiência revelam uma população forte e resiliente, pronta para lutar por um futuro melhor. Reconhecer e dar voz a essas comunidades é um passo vital na construção de uma sociedade mais justa.
Um Grito Coletivo por Visibilidade
A audiência pública promovida pela Câmara Municipal foi um marco significativo na luta por visibilidade das vozes das favelas. De acordo com o vereador Landmark Rios, autor da audiência, “hoje vocês estão dando voz não para mim, não para uma pessoa, mas para toda a cidade.” Este reconhecimento é fundamental, pois legitima e valida a luta dos moradores por melhores condições de vida.
O deputado federal Vander Loubet ressaltou a indignação frente à realidade dessas famílias, clamando pela necessidade de ações concretas. “Nós temos 20 mil famílias nessa situação em Campo Grande” disse ele, enfatizando que essa é uma questão que transcende a responsabilidade de um único gestor e refere-se a toda a sociedade.
O grito coletivo por visibilidade que ecoou na Câmara Municipal não é apenas um pedido de ajuda, mas um chamado à ação e à transformação social. A luta por uma sociedade mais justa, que respeite a dignidade de todos os seus cidadãos, continua, e a esperança de um futuro melhor se renova a cada voz que se levanta em busca de mudança.

